Bastonário dos médicos diz que há uma lição a tirar do fenómeno homeopático: a medicina clássica desaproveita o poder da mente
Marta F. Reis
O assunto é controverso, mas isso pouco importa para quem se dá bem com os tratamentos.
É o mais recente ataque à homeopatia: os médicos
australianos apelaram esta semana a um boicote à venda de produtos
homeopáticos nas farmácias, depois de a autoridade nacional de saúde ter
concluído que os medicamentos ultradiluídos usados há séculos não são
mais eficazes que um placebo, ou seja, fazem o mesmo que água com açúcar
se se estiver convicto de que isso funciona. Parece uma investida
inequívoca, mas o assunto está longe de estar resolvido. Há três anos,
na Suíça, um relatório da agência federal de Saúde Pública concluiu
precisamente o contrário, o que levou o governo a aprovar a inclusão da
homeopatia no sistema de saúde. Outros países como Alemanha e França
também comparticipam os tratamentos.
Mais de 200 anos depois de o médico alemão Samuel Hahneman ter proposto a
homeopatia, há um facto incontornável: o assunto é controverso, mas
para quem utiliza e consegue resolver os seus problemas de forma
satisfatória, isso pouco importa. Se o preço é muitas vezes um motivo de
queixa, nem a crise abalou a procura. Dados fornecidos ao i pela
consultora IMS-Health revelam que a venda de preparados homeopáticos
aumentou 60% desde 2010, um negócio que não perfaz, contudo, meio milhão
de euros por ano e consistiu em 2014 na dispensa de 80 mil embalagens.
Já dados do Infarmed apontam para um mercado muito maior, com a venda de
347 mil embalagens em 2014.
placebo ou efeito real? Apesar de os números serem díspares,
percebe-se que num país com dez milhões de habitantes os utilizadores
serão uma minoria. Serão os resultados fruto de mecanismos psicológicos
ou de propriedades das substâncias tomadas? Os defensores da homeopatia
não têm dúvidas: cada vez há mais estudos que recorrem a técnicas
avançadas da investigação científica para solidificar explicações como a
“memória da água”, que assenta na ideia de que agitando uma substância
em quantidades mínimas, muitas vezes surgem estruturas novas nas
moléculas da água que têm um efeito no organismo. Os cépticos questionam
a validade dos estudos que atribuem eficácia à homeopatia, que acusam
de não mostrar superioridade face ao tal efeito placebo. E apesar de
alguns médicos se terem convertido à homeopatia, em Portugal continuam a
ser grandes as resistências na classe.
Desde 2003 existe em Portugal uma associação de médicos que utilizam
também a homeopatia, a Associação Médica Portuguesa de Homeopatia.
Contestam o exercício da homeopatia por terapeutas que não tenham o
curso de Medicina e em 2013 pediram à Ordem dos Médicos a criação de uma
competência de homeopata, como existe noutros países como Áustria ou
Alemanha. Ainda não tiveram resposta, mas José Manuel Silva, bastonário
da Ordem dos Médicos, adiantou ao i que o conselho directivo já se
debruçou sobre a matéria e o parecer é negativo. “Consideramos que não
há fundamentação científica que o justifique. Mais de 200 anos depois
continua a haver uma profunda controvérsia, o que significa que as bases
não são consistentes e não podemos ter duas moedas, uma para os
medicamentos convencionais, que só são aprovados se fizerem mais que o
placebo, e outra para os homeopáticos”, diz o bastonário, que
pessoalmente diz ter muitas dúvidas sobre teorias como a da “memória da
água”.
Quando ao pedido de que apenas médicos pudessem exercer a homeopatia, a
ordem até está de acordo se for encarada como uma estratégia psicológica
com vista ao bem-estar, mas aqui o desfecho foi noutra direcção. Em
2013 foi publicado um diploma que vai regulamentar as terapêuticas não
convencionais e aguardam-se portarias específicas por área. Não será
exigido o título de médico para exercer nenhuma das terapias
alternativas, mas sim um curso equivalente a licenciatura na área
pretendida. Actualmente, a Associação Portuguesa de Homeopatia, a mais
antiga do país, conta com mais de 140 profissionais credenciados que
continuarão a poder exercer mesmo sem curso de Medicina. Todos terão de
ter uma célula profissional e estarão obrigados a ter registos clínicos
como os médicos, podendo ser responsabilizados por erros.
Mentalidades José Manuel Silva considera a mudança positiva e
acredita que isso levará também a uma mudança de mentalidade dos
doentes. “Hoje não exigem da homeopatia a mesma eficácia que da medicina
clássica e não se queixam quando corre mal, também por vergonha”, diz.
Também António Pimenta Marinho, médico de família em Braga, diz que já
viu doentes adiarem tratamentos importantes por irem primeiro à
homeopatia. “Por vezes, o desespero é tão grande que tira alguma
lucidez. Não o fazem por mal, mas o resultado não é bom”, diz. O médico
diz que são poucos os utilizadores, mas há cada vez mais a ideia de que
os produtos naturais “nunca fazem mal e fazem bem a tudo”, o que está
errado.
Procurar informação e ter abertura para falar com os médicos caso se
esteja a usar homeopatia é o conselho dos especialistas, até porque pode
haver interacções entre medicamentos. José Manuel Silva admite, ainda
assim, que há uma lição a tirar da abordagem homeopática: “Uma das
pechas da medicina clássica é ser excessivamente científica e não usar o
recurso à fé das pessoas”, diz, sublinhando que para isso há fundamento
científico. “A parte psíquica é muito importante em qualquer tratamento
e não tenho dúvidas de que se alguém procura a homeopatia por acreditar
que vai vencer, se sinta melhor e até prolongue a sua vida. Há estudos
que mostram que a mortalidade dos judeus é menor no sabbath e na Páscoa,
porque querem viver estas épocas.” Também Gabriela Sousa, presidente da
Sociedade Portuguesa de Oncologia, diz não se opor a que os doentes
usem homeopatia, desde que informem e a encarem como um complemento aos
tratamentos, e nunca como cura milagrosa. “É uma estratégia para andarem
emocionalmente mais fortalecidos, e isso não podemos ignorar.”