quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A Institucionalização da Homeopatia no Brasil Ariovaldo Ribeiro Filho


Médico homeopata; Vice-presidente da Associação Paulista de Homeopatia. aribeirof@terra.com.br
RESUMO
O autor faz uma breve resenha do desenvolvimento histórico da Associação Paulista de
Homeopatia (APH) dentro do contexto geral da institucionalização da homeopatia no Brasil.
Desde sua introdução por Benoit Mure, na década de 1840, até os nossos dias, foram muitas as
vicissitudes, com altos e baixos, que esta racionalidade atravessou, até chegar a ser reconhecida
como especialidade médica e suas instituições, reconhecidas.
Palavras-chave
Homeopatia; História; Institucionalização; Brasil; São Paulo
ABSTRACT
The author presents a brief summary of the historical development of Associação Paulista de
Homeopatia (APH) within the general context of the institutionalization of homeopathy in
Brazil. Since its introduction by Benoit Mure in the 1840s to our own days, this rationality had
to meet many challenges until receiving recognition as a medical specialty, together with its
institutions.
Keywords
Homeopathy; History; Institutionalization; Brazil; São Paulo
A homeopatia foi introduzida no Brasil por um discípulo francês de Hahnemann, Benoit-Jules
Mure (1809-1858), (Figura 1) que aqui chegou em 21 de novembro de 1840. Mure vem
inicialmente introduzir a doutrina social de Charles Fourier; para tanto, ele consegue apoio do
governo brasileiro de D. Pedro II e vai para o interior de Santa Catarina onde funda um
falanstério (comunidade que segue os princípios de Fourier), a qual, no entanto, não é bem
sucedida. (Figura 2)
Volta, então, Benoit Mure para o Rio de Janeiro, onde inicia o ensino, a prática e a propagação
da homeopatia. Seu primeiro discípulo no Brasil foi o médico português João Vicente Martins,
(Figura 3) quem propagou a homeopatia no norte e nordeste do Brasil. Em 2 de julho de 1859
foi fundado o Instituto Hahnemanniano do Brasil (IHB) na cidade do Rio de Janeiro.
A homeopatia se propagou, rapidamente, e, no final do século XIX, foi abraçada pelo
movimento positivista brasileiro, através de seus adeptos do Instituto Militar de Engenharia, no
Rio de Janeiro. Disto resultou um grande apoio oficial do governo republicano à homeopatia,
reconhecendo o seu ensino e a sua prática, criando enfermarias no Hospital Central do Exército
e no Hospital da Marinha, no começo do século XX. Também deste fato aparecem grandes
figuras da nossa cultura ligadas à homeopatia ou que mesmo chegam a praticá-la, como
Monteiro Lobato e Rui Barbosa.
A homeopatia manteve a sua força e seu crescimento no país até o final da década de 1920,
quando começou lentamente o seu declínio, talvez devido ao advento da terapêutica química na
medicina, pois o aparecimento de armas terapêuticas como as sulfas no início e os antibióticos
depois, encontrou os homeopatas despreparados filosoficamente para o exercício da
homeopatia, positivistas que eram na sua maior parte, e não vitalistas, como o exige o
pensamento homeopático e hahnemanniano.

Médico homeopata; Vice-presidente da Associação Paulista de Homeopatia. aribeirof@terra.com.br

Este estado de coisas teve tal evolução, que nos anos 60 praticamente já não existia a
homeopatia no Brasil. Nessa época, ela só sobrevive nas pessoas de alguns poucos abnegados,
principalmente nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Dentre eles, despontam os nomes de
Abraão Brickman, Alfredo de Vernieri, Paiva Ramos, David Castro e Artur de Almeida Rezende
Filho. Mas foi nesta mesma década, quando em todo o mundo e em diversos setores seguiam os
movimentos de contestação do status quo, que a homeopatia foi beneficiada, retornando num
ritmo crescente em termos de prestígio, notoriedade e demanda, tanto por parte dos pacientes
como dos colegas médicos interessados, até os nossos dias (30 anos depois), quando já não
existe mais conotação de modismo e sim de uma realidade, o reconhecimento de um velho-novo
campo do conhecimento médico. Vc tem alguma explicação para este ressurgir na década de 60?
A oficialização do ensino da homeopatia data de 25 de setembro de 1918, decreto n° 3530,
reconhecendo o Instituto Hahnemanniano do Brasil, como uma entidade de utilidade pública.
Alguns anos depois, em 1926, é organizado pelo Prof. José Emygdio R. Galhardo, o 1° Congresso
Brasileiro de Homeopatia, realizado no Rio de Janeiro.
A Associação Paulista de Homeopatia (APH) foi fundada em 5 de junho de 1936 pelo Dr. Alfredo
Di Vernieri. A comissão organizadora foi a seguinte: Dr. Alfredo Di Vernieri, Dr. Antonio
Murtinho Nobre, Dr. Silvino Canuto de Abreu, Dra. Helena Minin e Dr. Arthur de Almeida
Rezende Filho. Fundada em 05 de Junho de 1936, reconhecida de Utilidade Pública pela Lei
Estadual n.o 5.549, de 14 de Janeiro de 1960 e pela Lei Municipal n.o 31 132 de 22 de Janeiro de
1992, com sede à Rua Dr. Diogo de Faria n.o 839 – Bairro Vila Mariana – São Paulo.
A primeira fase da APH foi muito difícil, pois, embora contando com grande simpatia popular e
até governamental, a marginalização pela medicina clássica retardou muito o seu progresso.
Ainda assim, em 1937, o Dr. Abraão Brickman inaugurava um serviço de homeopatia na
Beneficência Portuguesa e o Dr. Rezende Filho criava a biblioteca da APH. Nesta época, toda a
divulgação homeopática era feita através de jornais, rádio e uma revista que perdurou até 1942.
Em 1952, pelo decreto no 1552, de 8.07.52, foi tornado obrigatório o ensino da Farmacotécnica
Homeopática em todas as faculdades de farmácia do Brasil.
Houve um hiato na época do pós-guerra, de 1942 até a década de sessenta, quando, aliando-se
ao momento de contestação mundial, e ao incansável trabalho do Dr. David Castro, a
homeopatia recomeçou a se desenvolver. Reiniciou-se a edição da revista, entrevistas através de
rádios, jornais e televisão, cursos para estudantes, etc. Em 14 de janeiro de 1960, a APH foi
reconhecida como entidade de utilidade pública.


Em 1966, durante o Governo Castelo Branco, foram publicadas várias portarias, com instruções
de instalação e funcionamento de farmácias homeopáticas e industrialização de seus
medicamentos. Até este momento, a APH funcionava nos consultórios e residências dos
Diretores. Em 6 de junho de 1970, foi colocada a pedra fundamental da sede e do ambulatório
da APH e, em 1972, realizar-se-ia o XII Congresso Brasileiro de Homeopatia em casa própria.
Nesta época, as atividades se resumiam às reuniões científicas de 5 a feira à noite e ao
ambulatório de ensino.
Foi em 1976, com a vinda do Prof. Francisco Xavier Eizayaga, da Argentina, que foi criado o
Curso de Especialização em Homeopatia para médicos, com duração de dois anos, um final de
semana por mês. Vale a pena lembrar que este curso iniciou-se com 10 alunos e terminou com
cerca de 50. Expoentes da Homeopatia de hoje foram formados nessa época. Como
idealizadores deste curso, os Doutores Félix Barbosa de Almeida (São Paulo), Javier Salvador
Gamarra (Curitiba) e Matheus Marim (Campinas), sob a presidência do Dr. Alfredo Castro. Essa
foi a origem de boa parte dos principais cursos de todo o Brasil.
Foi em 1976 também que o governo oficializou a Farmacopéia Homeopática Brasileira
(decretada em 1972).
Em 4 de julho de 1980, pela resolução CFM n° 1000, a homeopatia foi reconhecida como
especialidade médica pelo Conselho Federal de Medicina. No mesmo ano, foi fundada a
Associação Médica Homeopática Brasileira (AMHB). A partir deste momento a homeopatia
ganhou força e maior apoio da classe médica. Aos poucos foram sendo criados cursos regulares
para a formação de profissionais nas áreas de Farmácia, Odontologia e Medicina Veterinária.
No ano de 1990, a biblioteca da APH tornou-se referência de toda a literatura homeopática da
América Latina e Caribe (fruto do convênio da APH com a BIREME/OPS e HOMEODATA).
Desde este ano, seguindo determinação da AMHB, o curso para médicos vem sendo realizado
em três anos, com o intuito de cumprir a carga horária mínima de 1200 horas/aula. A Revista de
Homeopatia foi indexada na base de dados LILACS, da BIREME/OPS.
Atualmente existem aproximadamente vinte associações de representação médico-
homeopáticas filiadas à AMHB e cerca de dez farmacêuticas, abrangendo todo o território
nacional, em muitas delas são realizados cursos regulares de formação em homeopatia. A APH,
em contrapartida ao comodato de uso do terreno onde está sua sede, conveniou-se com a
Prefeitura e recebe pacientes do SUS para atendimento em seu ambulatório.
A APH vem cumprindo seu papel de ser um dos principais pólos de referência da homeopatia
em nosso país. Possui tradição de mais de 70 anos de fundação, uma Revista indexada, uma
biblioteca de referência, é quem praticamente mantém a entidade nacional (AMHB), tem como
função defender os interesses dos médicos homeopatas, e mais: organizar e promover o ensino
científico e técnico da Homeopatia teórica e prática, segundo os princípios básicos
hahnemannianos, para o progresso da ciência médica; incentivar a obtenção de Título de
Especialista em Homeopatia; contribuir para o desenvolvimento de estudos e pesquisas que
propiciem a consolidação do conhecimento homeopático e a articulação da Homeopatia em
todas as áreas da biomedicina; incentivar a troca de experiências entre os diversos grupos
homeopáticos atuantes no País ou no exterior.